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7/8/2008 MEDO6/12/2008 NAMORADOS
(De Pearls, no livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves, pág. 158) 6/2/2008 DIAS DE INVERNOClaro que há controvérsias, mas são doces estes dias de frio, se não chove. Tudo e todos se quedam mais recolhidos, menos afoitos. Reina um tipo de delicadeza. A delicadeza de falar mais baixo, de estar mais em casa, buscar aconchego, sair menos às ruas, especialmente à noite, ou de madrugada, reduzindo as chances de acontecimentos funestos. (Será que há menos crimes, nesses dias e noites? Será que criminosos não pensam melhor antes de sair para invadir, roubar, ferir? Talvez.) O fato é que dessa delicadeza vem mais poesia, mais cuidado, mais olho no olho e intimidade, inclusive com as coisas nossas de cada dia. Mesmo que à força, olha-se melhor para dentro. Para dentro da gente, dentro de casa, dos guarda-roupas, das gavetas. E pensa-se nos outros que, se têm gavetas, agasalhos dentro delas não têm. E se constrange o coração de muitos, donde surgem doações, campanhas do agasalho, solidariedade, algum compartilhamento. Não se vê, no verão, distribuição de shorts, camisetas-regata, biquínis... Não se constrangem os corações pelo calor que os menos favorecidos andam passando, até porque onde não há o refresco do mar há o de um rio, cachoeira, piscina, tanque ou torneira, e muito menos se deflagram campanhas para doar refrigerantes, sorvetes, saladas... E isto pode embrutecer a gente. Nestes dias frios há mais silêncio, mesmo de dia, inclusive da parte dos bichos, como se dessem trégua a correria e a barulheira, latidos e comparecimento de aranhas, baratas, formigas. O olhar é mais atento, menos disperso, mais perspicaz: sente mais. E sentar ao sol que não queima nem faz suar aquece também a alma, convida a sonhar, cochilar, namorar... Daí mais comedimento, menos espalhafato, mais elegância. Anda-se mais devagar, sempre que possível, talvez para armazenar calor, e isto prolonga os passeios e as conversas, se se está em paz. Dá vontade mais vezes de arrebentar pipoca e tomar chocolate quente, de beber mais chá ou café, de assar bolo e pão, fritar bolinho, ficar junto, conversar. E de abraçar o cobertor que ficou quente, na janela (que delícia!) e aproveitar aquele trecho da cama (ou de qualquer outro lugar) onde o sol pega à tarde, ou de manhã, e sentar ali com um livro, esquentar os pés, as costas, chupar mexerica, lagartixar... Tão simples! Aqui, nas montanhas, nem venta nesses dias. Lá pelas tantas pode passar, como em câmera lenta, uma nuvem leve, frisada e branquíssima, muito alta, a lembrar os Alpes ou os Andes, talvez. E o céu é tão profundamente azul que parece ser ele o responsável pela quietude da vizinhança: talvez tenham parado um pouco para beber desse azul, desse sol ameno, do ar mais fino, mais limpo. Ou, quem sabe bordem mais, leiam mais, lagartixem mais? Também pode ser que se acovardem mais no sofá, diante da TV, encolhidos e tolhidos... cada um, um estilo. Claro que pisar descalço no piso frio do box, no banheiro, exige um “plus” de disposição, e sair do banho quente e relaxante, ou da cama de manhã quase requer coragem mesmo, em pessoa, e digo quase porque não dá para esquecer do que requer verdadeira coragem nesta vida e que passa longe de tocar em metais e azulejos gelados! Esses pequenos sustos, quando nem 10º marcam os termômetros, compõem o lado ruim dos dias frios. Mas desgraça é outra coisa. Agradável não é lavar as mãos na água fria, ou tirar a roupa para entrar no banho, muito menos o são as tarefas dos que precisam mexer em água, e o dia-a-dia penoso dos desfavorecidos pela imprevidência própria ou alheia, mas tudo também faz parte. O nome do planeta é Terra, não Céu, o que faz da vida aqui um campo de provas. Com chances de pequenos e grandes prêmios. Felicidade completa, mesmo, só a dos bichinhos domésticos: pegam sol o dia inteiro, espalhados onde há mais calor, lânguidos e preguiçosos, se é que se pode – ou deve - atribuir a eles qualidades tão humanas. No inverno ou no verão. 5/11/2008 MINHA MÃEDou graças por ter vindo dela, pessoa de boa vontade. Estava no olhar, espelhado em azul. Azul que ela valorizava, toda manhã, com lápis da mesma cor. Fosse ou não fosse sair, pintava os olhos e usava brincos: Dona Gláucia. Conviver com ela implicava aprender que "toda criança é basicamente sagrada". O sono delas, divino, a ser defendido como a um santuário. Que tenham paz... Acordados, uma alegria: ela juntava as mãos, como em prece, e aí era festa! Alegria e brincadeiras: impressões indeléveis nas almas dos seis filhos e dos netos. Que o digam minhas meninas, cuja infância ela coloriu e perfumou... Cuidar das crianças, diverti-las, tranqüilizá-las: garantido isto, faça-se o resto. Se houver tempo e se for urgente: sábia visão das coisas! Seu dom especial: a noção exata do essencial. Certa manhã, encontrei minhas filhas, pequenas, brincando com ela (os olhinhos brilhando), debaixo da mesa da copa (a toalha era a "porta da cabana")...A casa que esperasse, o almoço também: primeiro as crianças! Quem mais desceria de um ônibus dizendo: "- Tchau, gente!"? - Era ela, fazendo amizades. Sem preconceito. Risonha e de cabeça erguida. Elegante como se fosse rica, ela operava milagres. Olhava o limão com superioridade e dele fazia boa bebida... E a risada? Sonora, aberta, completa. (Hoje existe o silêncio, no vazio que ela deixou.) Dona de casa exemplar? Se sobrasse tempo... A garrafa com estilo virava um lindo arranjo, a cortina velha dava duas fantasias, surgia de repente um balanço, um escorregador na sala... Isto sim, era urgente. Mais sabedoria: o que fica e frutifica não é isso mesmo? Tivemos brigas e desentendimentos, mas hoje vejo que, na maioria das vezes, ela só estava insegura sobre como me defender...Contra mim ela nunca esteve, embora fosse o que me parecia. E nas vezes em que se enganou foi por excesso de zelo e só. Mas a gente só percebe isto com a maturidade e, principalmente, com a maternidade. As boas mães merecem homenagem pois não é questão de instinto: é aptidão e opção de vida, ou não haveria mães ruins. A minha também soube ser mãe de filhos de outras mães: amigos dos seus filhos, em dificuldades, genros e noras, namoradas e namorados, vizinhos...Quem precisasse! Era gostoso levar amigos em casa na certeza de que eles gostariam dela. Bela imagem a da minha mãe! Grande responsabilidade a dos filhos dela, até hoje iluminados pelas lembranças e exemplos de conduta de uma mulher que sempre soube ir em frente nos caminhos da vida, pois render-se só mesmo "na marra" e só diante da Fatal Senhora, porque aí não há mesmo saída: nem para as mães... VALEU, MÃE!
4/28/2008 DITADO IRLANDÊS
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