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    May, 2008

    MINHA MÃE

     

                                                                                                                                                                                      Mamãe e eu bebê  

            Dou graças por ter vindo dela, pessoa de boa vontade. Estava no olhar, espelhado em azul. Azul que ela valorizava, toda manhã, com lápis da mesma cor. Fosse ou não fosse sair, pintava os olhos e usava brincos: Dona Gláucia.

            Conviver com ela implicava aprender que "toda criança é basicamente sagrada". O sono delas, divino, a ser defendido como a um santuário. Que tenham paz... Acordados, uma alegria: ela juntava as mãos, como em prece, e aí era festa! Alegria e brincadeiras: impressões indeléveis nas almas dos seis filhos e dos netos. Que o digam minhas meninas, cuja infância ela coloriu e perfumou...

            Cuidar das crianças, diverti-las, tranqüilizá-las: garantido isto, faça-se o resto. Se houver tempo e se for urgente: sábia visão das coisas! Seu dom especial: a noção exata do essencial. Certa manhã, encontrei minhas filhas, pequenas, brincando com ela (os olhinhos brilhando), debaixo da mesa da copa (a toalha era a "porta da cabana")...A casa que esperasse, o almoço também: primeiro as crianças!

              Quem mais desceria de um ônibus dizendo: "- Tchau, gente!"? - Era ela, fazendo amizades. Sem preconceito. Risonha e de cabeça erguida. Elegante como se fosse rica, ela operava milagres. Olhava o limão com superioridade e dele fazia boa bebida... E a risada? Sonora, aberta, completa. (Hoje existe o silêncio, no vazio que ela deixou.)

             Dona de casa exemplar? Se sobrasse tempo... A garrafa com estilo virava um lindo arranjo, a cortina velha dava duas fantasias, surgia de repente um balanço, um escorregador na sala... Isto sim, era urgente. Mais sabedoria: o que fica e frutifica não é isso mesmo?

             Tivemos brigas e desentendimentos, mas hoje vejo que, na maioria das vezes, ela só estava insegura sobre como me defender...Contra mim ela nunca esteve, embora fosse o que me parecia. E nas vezes em que se enganou foi por excesso de zelo e só. Mas a gente só percebe isto com a maturidade e, principalmente, com a maternidade.

            As boas mães merecem homenagem pois não é questão de instinto: é aptidão e opção de vida, ou não haveria mães ruins. A minha também soube ser mãe de filhos de outras mães: amigos dos seus filhos, em dificuldades, genros e noras, namoradas e namorados, vizinhos...Quem precisasse! Era gostoso levar amigos em casa na certeza de que eles gostariam dela. Bela imagem a da minha mãe!

             Grande responsabilidade a dos filhos dela, até hoje iluminados pelas lembranças e exemplos de conduta de uma mulher que sempre soube ir em frente nos caminhos da vida, pois render-se só mesmo "na marra" e só diante da Fatal Senhora, porque aí não há mesmo saída: nem para as mães...

                             VALEU, MÃE!