É intrigante o que sucede na virada do ano. Rigorosamente tudo muda tanto quanto mudava no dia 30 de dezembro ou em 5 de março... Logo, não faria sentido o sentimento que se apodera da gente, de expectativa similar à que domina as crianças na véspera do Natal. Só porque um ano se acaba e começa outro? (Ou porque chegam agendas novas, que nos remetem à gostosa lembrança dos cadernos e livros novinhos em folha da nossa infância?).
É certo que não muda a estação nem a situação por causa disso. Não passa a fazer Sol de noite (graças a Deus, aliás...) nem cessam os conflitos no Oriente Médio. Não se perdoam as dívidas, não se multiplicam os benefícios (os do INSS, muito menos...), não se acalmam os cães por causa dos foguetes, enfim, nada de excepcional ocorre por conta da mudança no calendário. Então, por que a euforia? Por que a sensação de festa, quase obrigatória?
Claro que, em parte, porque a mídia instiga, alimentada pela sede de vendas do comércio no deus-nos-acuda de Natal e férias. Mas o motivo determinante desse status quo é o cansaço geral. Pais e professores, crianças e adolescentes, trabalhadores e ociosos vão chegando ao limite da paciência, da boa vontade e da energia. Porque o último 1o. de janeiro já vai tão longe que parece que já faz 3 anos! As retrospectivas da TV nos fazem rever os acontecimentos todos juntos, e até duvidamos que alguns são mesmo do ano que acaba. Cansaço!
Não dá pra negar que a gente se deixa levar por ele em parte porque sabe que aquela fatia de tempo chamada ano está mesmo nas últimas: não fosse assim e a gente aguentaria mais um pouco. Mas, a que preço? Ritos de passagem são importantes, necessários. Sem eles o tédio tomaria conta. Só os imprevistos - visitantes assíduos - quebrariam as infindáveis rotinas dos dias e noites, noites e dias. Então, festejar e relaxar, dar um tempo e uma trégua são questão de saúde, inteligência e necessidade. O que me leva a concluir que não, não tem nada de intrigante no que acontece na passagem do ano... E isto, sim, é intrigante! 